Tragédia e caos: O dia em que Santiago parou
Chuva, corte no abastecimento de água e de energia elétrica, alagamento e dois temblores marcaram o final de semana em Santiago, no Chile
O domingo do dia 17 de abril de 2016 nunca será esquecido pelo povo de Santiago, no Chile. E não foi por conta de nenhum forte terremoto como houve no dia anterior no Equador. Os chilenos são especialistas em lidar com esse tipo de situação. Lembramos que em 2010 um terremoto de magnitude 8.8 na escala Richter atingiu a cidade e um tsunami matou muitas pessoas no litoral próximo. E que em setembro de 2015, a equipe BRchile presenciou um tremor de 8.4 pontos que sacudiu o país e teve reflexos em boa parte da América do Sul.
O que fez Santiago colapsar literalmente foi a chegada da chuva. Havia cinco meses que não chovia na cidade e essa seca é algo comum na cidade. E se terremotos não são novidade e faz do chileno um povo especialista no fenômeno, já a chuva os assustam e faz escancarar o quanto o país, principalmente Santiago e os santiaguinos, não estão preparados para ela.
Mas antes de entrarmos no ocorrido nesse dia 17 de abril, vamos entender que por aqui não temos tempestades como no verão brasileiro e nem fortes pancadas como estamos acostumados. As raras vezes que chove temos pancadas fracas e nada que se arraste por dias. O mínimo de chuva que possa cair já faz o assunto virar notícia nos telejornais, por exemplo. Eles realmente a tratam com a palavra “fenômeno” e fazem disso um alarde absurdo. O povo é instruído em como se comportar na chuva, o que vestir, como guiar um carro em pistas molhadas, a que horas sair de casa e tantas outras coisas mais. O comércio, muitas vezes, fecham suas portas por causa de uma simples chuva. E o assunto não se esgota enquanto o sol não voltar a brilhar.
O que ocorreu antes desse dia citado foi que um “sistema frontal”, como eles chamam uma frente fria que traz a chuva, chegou com força e trazendo muita água para a cordilheira. Conforme já citado, estamos falando de chuvas de menor intensidade em relação as quais estamos acostumado. Enfim, a chuva chegou e deixou as águas do Mapocho e Maipo, principais rios que abastecem a cidade, contaminadas pelo barro que desceu das montanhas. Isso ocorreu na sexta-feira e fez com que acordássemos no sábado com a notícia que toda Santiago estaria com corte de água por no mínimo 24 horas. Começava aí o colapso santiaguino. Enquanto isso, a cidade ainda não havia recebido realmente uma chuva de verdade. Mas, para os chilenos, sim. O que mostra como eles não conseguem aceitar isso sem que o chame de fenômeno da natureza.

Sacos de serragem evitam que a água se espalhe pelo centro comercial (Foto: Carlos Fernandes)
Por conta do corte de água e da chuva, o comércio fechou as portas, principalmente os principais supermercados da comuna de Providencia, onde a equipe BRchile reside. E local onde se encontra a maior parte dos turistas que visitam a capital chilena. Barricadas de sacos de areia foram espalhados a fim de conter a água. E outra curiosidade: eles costumam espalhar pó de serragem na entrada das lojas e prédios nos raros dias de chuva para evitar os escorregões. Sem água e sem supermercado. Assim terminou o sábado por aqui.
A primeira notícia do domingo dia 17 de abril de 2016 era que Santiago estava alagada. E realmente estava. Mais precisamente toda a região de Providencia. Na TV apenas notícias referentes ao alagamento das principais avenidas da localidade. Providencia é considerado um dos bairros mais queridos de Santiago por tudo o que envolve tal região para os locais e turistas. O Mall Costanera Center, um dos maiores shopping centers da América do Sul, estava sem acesso pelas ruas transbordadas e seu estacionamento todo inundado. E as várias galerias existentes na área também. Por aqui existem muitas dessas galerias com lojas e restaurantes no subsolo.

Ruas inundadas em Providencia (Foto: Carlos Fernandes)
A princípio, o que houve foi que o rio Mapocho, que se inicia na cordilheira, transbordou e Providencia recebeu todo o volume dessa água. Sem contar que, por mais fraca que seja a chuva, de sábado a tarde até pela madrugada de segunda ela foi torrencial. Para Jorge Burgos, Ministro del Interior, uma obra existente na cidade estava alterando o bom curso do rio Mapocho e que isso também contribuiu para a cheia e o transborde. Essa afirmação se deu após o ministro ter sobrevoado a cidade na manhã de domingo.

(Foto: Carlos Fernandes)
Além disso tudo, chegamos ainda a um dos maiores problemas de Santiago e uma das razões para afirmarmos que eles não estão preparados para chuva: praticamente não há bueiros pela cidade. É possível contar nos dedos o número de bueiros que há nas avenidas principais.
Sem água, sem supermercado e com as ruas alagadas, Santiago se tornou o caos. Encontrar algum estabelecimento aberto para comprar algo foi extremamente difícil. Domingo já é o dia em que o comércio em geral não funciona na cidade, nem mesmo os restaurantes. Temos apenas os supermercados e os shopping centers para recorrermos. E, na situação atual daquele momento, nem mesmo o Costanera Mall, shopping center que atende Providencia, estava aberto. Conseguimos encontrar um única loja de conveniência aberta e que estava muito concorrida, além de uma feirinha vendendo frutas e empanadas. Aliás, o local onde vendia as empanadas estava lotado também. O domingo seguia para seu final com a notícia de que o abastecimento de água só seria normalizado a partir da segunda-feira pela manhã.

Sacos de areia evitam alagamento em estacionamento subterrâneo (Foto: Carlos Fernandes)
Já pela madrugada, sentimos um temblor de 3.7 pontos na escala Richter com epicentro em Santiago. E pela manhã, outro temblor de 5.5 pontos com epicentro em Coquimbo. Mas como um tremor de terra não é notícia por aqui, a TV estava anunciando que cortes de energia elétrica aconteceriam em Providencia. E muito barro encontrava-se espalhado pelas ruas locais.
Enfim o sol apareceu na tarde de segunda-feira em meio as nuvens e, ao que tudo indica, o santiaguino vai voltar a sua rotina normal aguardando que a terra trema a vontade, mas que a chuva se esqueça um pouco do Chile.
Antes de encerrar, vale citar que o comportamento do povo em dias úmidos é muito estranho aos nossos costumes, pois eles escondem o nariz por baixo de um lenço ou cachecol para não respirar a umidade. Sendo assim, os chilenos agradecem a volta do sol em suas vidas.














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